Pensamento

"A história é a verdade que se deforma, a lenda é a falsidade que se encarna." Jean Cocteau
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sábado, 9 de março de 2019

A Fortificação de Monção e a Lenda de Deuladeu:

A Fortificação de Monção

Portas de Salvaterra, Fortaleza de Monção
Bilhete Postal de 1955, Edição da Zona de Turismo das Caldas de Monção
Fotografia de Domingos Alvão, data anterior a 1946.

A província do Minho seria povoada nos mais recuados tempos da pré-historia, prova disso são os artefactos encontrados relacionados com as civilizações do paleolítico, neolítico e idades dos metais. A origem de Monção não é muito clara, estima-se que pela sua localização geográfica, limitada a norte pelo Rio Minho, que a separa de Espanha, a leste pelo município de Melgaço, a sul por Arcos de Valdevez, a sudoeste por Paredes de Coura e a oeste por Valença, seja certamente muito anterior a formação do país. Todavia só começa a ganhar algum protagonismo com a estratégia política de D. Afonso Henriques para o Alto Minho, cujos documentos incidem sobre os castelos de Pena da Rainha, Froião, Valadares e Melgaço.

Trecho das Muralhas e Margens do Rio Minho
Bilhete Postal s/d, Editora Foto Ideal, Monção.

A afirmação da vila de Monção aparece no reinado de D. Sancho I, a primitiva povoação existente por esta altura vê crescer em seu redor uma fortificação, hipótese não confirmada objetivamente, os historiadores estabelecem um paralelismo a outros castelos e fortificações emergentes pelo país correspondendo a uma consolidação dos efectivos populacionais do reino. 

Trecho do Amuralhado Vauban, Fortaleza de Monção
Bilhete Postal de 1955, Edição da Zona de Turismo das Caldas de Monção

Com maior certeza histórica foram as acções de D. Afonso III, nas Inquirições ordenadas por este em 1258, Monção aparece já como vila, facto que levou alguns autores a sugerirem que a fundação da localidade tenha sucedido nesta altura.

Aspeto Atual das Muralhas do Forte e da Vila de Monção
Foto de autor e data não identificados.

Estima-se que a fortificação tenha sido concluída em meados do século XIII, o Carta de Foral, passado a 12 de Março de 1261, permite inferir que a vila já estaria fortificada, ao referir os miles de Monçom, o que também é questionado por alguns estudiosos, sob o argumento da escassez demográfica da região à época.

Vista Sobre o Rio Minho e Salvaterra, Fortaleza de Monção
Bilhete Postal, n.º 22, Edições Panorama, c. 1960.

No que concerne a tipologia do castelo, não há dúvidas de que é gótica, com o seu perfil ovalado, a torre de menagem associada a uma das portas e o carácter ortogonal dos seus arruamentos. Das muralhas mediavas construídas no tempo de D. Dinis, que entre 1305 e 1308 patrocinou a reforma integral da fortaleza, resta apenas um trecho junto ao passeio dos Néris integrado na nova fortaleza. 

Rua Direita, Fortaleza de Monção
Bilhete Postal de 1955, Edição da Zona
de Turismo das Caldas de Monção
Fotografia de Domingos Alvão, data anterior a 1946.

Composto por duas portas, uma principal, defendida pela torre e outra mais pequena, que levava à zona ribeirinha, a malha urbana interna era atravessada pela rua direita, que colocava em comunicação as duas entradas e a igreja matriz também construída no início do século XIV. Por sua vez, outros arruamentos cruzavam a rua principal, definindo-se, assim, uma tendência urbanística ortogonal, à semelhança do que aconteceu com outras povoações ribeirinhos como Caminha.

Vista do Baluarte do Suoto, Fortaleza de Monção
Foto SIPA, 2005.

Anos de desenvolvimento económico e demográfico se avizinharam e a povoação prosperou, sendo que no reinado de D. Fernando (1367-1383), na sequência da guerra com os castelhanos, estes invadem Portugal e fixam-se em Monção, o castelo foi sitiado pelo exercito às ordens do rei  Henrique II de Castela, por volta de 1369 um retrocesso atinge a região.

Porta do Paiol, Fortaleza de Monção
Foto SIPA, 2005.

Com a morte de D. Fernando, vivem-se dois anos de intensa crise e os homens bons de Vila Nova de Cerveira, Caminha e Monção enviaram mensagens ao Condestável D. Nuno Álvares Pereira, declarando-se verdadeiros portugueses e entregando-lhe voluntariamente essas povoações e seus castelos. No século XV, em altura ainda desconhecida, mas que pode corresponder aos melhoramentos ordenados por D. João I, construiu-se uma couraça a envolver a antiga muralha dionísio, uma espécie de muros paralelos que defendiam os acessos ao núcleo das muralhas, as atualizações da arquitetura militar eram constantes numa tentativa de acompanhas os exigentes desenvolvimentos da arte da guerra.

Baluarte de Nossa Senhora da Conceição, Fortaleza de Monção
Foto de autor e data não identificados.

Mas a grande reforma militar de Monção teria lugar no século XVII, na sequência nas novas táticas de guerra na utilização de artilharia móvel que exige fortificações com estruturas de outro tipo, um técnica de defesa designada por "Vauban" que lhe deu a forma estrelada e de fortaleceu as muralhas,as obras iniciaram-se em 1656, sob projeto do engenheiro militar Miguel de l'Escole, condução do mestre João Alves do Rego. 


Baluarte de Nossa Senhora da Vista
Foto SIPA, 2005.

Os trabalhos de fortificação foram concluídos no inicio do século XVIII, sob direção do engenheiro Manuel Pinto Vilas-Lobos, e do conde de Lippe, na década de setenta do mesmo século.

Baluarte de São Luís e Guarita
Foto SIPA, 2005.

As velha muralhas que delineavam a praça de guerra, seriam reformuladas, em particular a frente para o rio Minho, na base esteve o projeto de raiz que visou proteger a moderna vila de Monção, que há muito se havia expandido para alem do núcleo medieval.

Postigo das Caldasa, Fortaleza de Monção
Foto SIPA, 2005.

Com nove baluartes, a maior parte dos quais em cunha, e cinco portas, de salientar a de Salvaterra, que contém as armas nacionais, e que permanece intacta, o novo perímetro muralhado previu a inclusão de amplos espaços de manobra, que ainda hoje permanecem não edificados, o que permitia uma maior mobilidade e racionalidade na movimentação e disposição das tropas, ao mesmo tempo que instituía uma nova centralidade interna, marcada pelo rossio, largo onde, nos anos seguintes se construiu o Pelourinho e a Igreja da Misericórdia.

Cortina Interrompida pela Abertura da Avenida das Caldas
Foto SIPA, 2005.

Ainda no século XIX, na sequência da abertura de novas artérias da vila a fortaleza com um perímetro aproximado de 1500 metros, viria ser gravemente mutilada para abertura de estradas de passagem para o Caminho de Ferro, como a estação no interior da Vila.

Casamatas Ladeando Porta do Rosal, Fortaleza de Monção
Foto SIPA, 2005.

Foi classificado Monumento Nacional por Decreto de 16 de junho de 1910, no primeiro quartel do século XX procederam a algumas obras de restauro dos Monumentos Nacionais no troço de fronte para o Hospital, correspondente à zona de Néris.

Arco de Valdavez, Fortaleza de Monção
Foto de autor e data não identificados.

Hoje é possível percorres praticamente todas as muralhas intactas e duas das cinco portas iniciais mesmo as partes que foram rasgadas para estabelecer vias de comunicação foram assegurados passadiço para permitir que a visita às muralhas seja efetuada sem interrupções.

Planta da Fortaleza de Monção - 1802
Legendas: 
A - Baluarte de S. Bento
B - Baluarte de N.ª Sr.ª da Conceição
C - Baluarte de S. Pedro (Souto)
D - Baluarte de St.º António (Cova do Cão)
E - Baluarte de S. João (Terra Nova) 
F - Baluarte Nª. Sr.ª da Guia 
G - Baluarte de S. Luíz (Salvaterra) 
M -Baluarte de S. José 
H - Baluarte de Nª. Sr.ª da Boavista 
N - Baluarte de Nª. Sr.ª do Loreto 
I - Baluarte de S. Francisco 
L- Baluarte de S. Felipe (Néris) 
X -Caldas 
Z – Palheiro 
1 - Porta do Sol 
2 - Porta das Caldas ou Fonte da Vila 
3 - Porta de S. Bento 
4 - Porta de Salvaterra 
5 - Porta do Rosal 
6 - Quartel Cavalaria para 120 Cavaleiros 
7 - Casa do Governador 
8 - Convento de St.º António 
9 - Igreja Matriz 
10 - Misericórdia 
11 - Capela da Sr.ª do Loreto 
12 - Convento dos Congregados 
13 - Quartéis para 600 a 700 homens 
14 - Armazém 
15 - Armazém de pólvora 
16 - Cerca do arruinado Convento de Freiras


A lenda do Castelo de Monção e da Deuladeu Martins;


Brasão Municipal de Monção.
Gravura da obra As Cidades e Villas da
Monarquia Portugueza que Teem Brasão d'Armas
(III vols., 1860-62; data na capa do vol. I, 1865),
de Inácio de Vilhena Barbosa (1811-1890).
Foto In blogdaruanove.blogs.sapo.pt/:

No auge das guerras entre D. Fernando I de Portugal e Henrique II de Castela, o castelo de Monção foi sitiado pelo exercito castelhano comandado por Pedro Rodrigues Sarmento da Galiza, toda a vila de Monção é cercada após muitos dias de combate.

Praça Deu-la-deu, Monção
Bilhete Postal n. 5, Edição SNI, Coleção Panorama, s/d.
Também conhecido como Terreiro, onde se realizam grandes
concentrações populares, particularmente as que assinalam as
festas em honra do Corpo de Deus e Nossa Senhora das Dores.
Por outras palavras representa o "centro cívico da população".
Foto anterior a calçada portuguesa que hoje reveste a praça.

Depois de vários dias cercados, os mantimentos começam a faltar, só resta a rendição e entregar o castelo aos castelhanos. Foi então que uma ideia imerge da fraqueza transformando-a no instrumento de ações grandiosas, inspirada, uma mulher Deuladeu Martins, esposa do capitão-mor daquela vila, Vasco Gomes de Abreu, uma dessas mulheres que a História nos aponta como exemplo, perante a inutilidade das armas e a dominância da fome que evidenciava a fragilidade dos homens que valentemente resistiam à tomada do castelo pelos castelhanos, perante as ultimas porções de farinha insuficiente para reverter a fome que abundava na praça, põe em pratica um arrojado plano, sabendo que também aos inimigos começava a escassear o pão, pega da farinha, manda-a amassar e cozer, e, depois, enchendo um cesto com os pães que ela produzira, sobe às muralhas, e daí os lança aos Castelhanos, dizendo-lhes:

— A vós, que não podendo conquistar-nos pela força das armas, nos haveis querido render pela fome, nós, mais humanos, e porque, graças a Deus, nos achamos bem providos, vendo que não estais fartos, partilhamos o pão que abunda nas provisões do castelo, e vos daremos mais, se o pedirdes.

Brasão de Armas da Vila de Monção
Tal como se encontra no Livro de Brasões das Cidades e Vila,
Trabalho da autoria do Rei de Armas Índia, Francisco Coelho, 1675.
A letra e desenho "tosco" do brasão conjugam-se para expressar
que a localidade heraldicamente representada era uma povoação de
habitantes entregues a agricultura em território sujeito a ataques
do inimigo e só poderia viver e prosperar da fortaleza.

Os Castelhanos, vendo ali os pães frescos e saborosos, ficaram tão desconcertados com esta acção, crentes de que a praça estava abundante de mantimentos, devoraram-nos num instante para logo levantarem cerco desesperançosos de conseguir entrar na vila.

Estátua de Danaíde, em Monção.
No brasão, pode-se ver a figura de Deu-la-deu
Foto de Nmmacedo em 2010.

Em reconhecimento deste feito os moradores ergueram uma estátua a Deuladeu Martins e eternizaram a sua memória incluindo a sua representação nas armas da vila, figuradas no Brasão de Monção.

Observações:



A aproximação ou utilização de fatos históricos na descrição da lenda tem gerado grande controvérsia e indignação por parte dos historiadores, António Moraes Reis, Centro de Estudos Regionais, Viana do Castelo, explica que " A designação de terra de Deuladeu é um disparate, visto que nada diz. A tão estafada Deuladeu, está provado, com investigações sérias e com documentos, que não existiu. Não existiu como pessoa nem existiu o apregoado cerco de Monção, onde se diz que ela se notabilizou."

Com efeito existem semelhança com outras lendas também associados a feitos protagonizados por mulheres, como é exemplo de Abedim e o Castelo da Penha da Rainha. Generalizam-se um pouco por toda a Europa medieval contos de feitos heróicos, astutas proezas de causar intimidação e vergonha à engenharia militar, cujo relatos carecem de fundamentação evidente. Também os pães são convertidos em outros alimentos  como vacas ou trutas gigantes, etc.

Personagens do Filme "Cálice Sagrado" de 1975

Na verdade esta sabedoria popular vigorava por toda a Europa até no celebre filme "Monty Python e o Cálice Sagrado", uma sátira a diversos acontecimento da idade média em que o Rei Arthur sai em busca do Calice Sagrado, num dos episódios uma vaca é jogada das muralhas de um castelo, simbolizando a fartura de mantimentos, como resposta ao inimigo que havia montado cerco em volta do castelo.

Os historiadores apontam uma razão comum ao aparecimento de lendas associadas a fatos históricos, o principio comum converge para a modelação das realidades menos favoráveis da história das regiões e até países, uma forma de desvalorizar os feitos que menos enaltecem a história e o orgulho das populações.

Fontes:
Uma Monografia de Monção, ROCHA, J. Marques, Edições ASA, 1988;
Fortaleza de Monção, Direção Geral do Património Cultural, 2011;
Sistema de Informação Para o Património Arquitectónico;Noé, Paula 1992-2008; 
Castelos de Portugal; Roteiro e Lendas; Volume 1, Parafita, Alexandre, 2018;

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

As Pontes das Barcas do Douro, Porto


"Vue de la ville et du port de Porto", Documento subordinado
Ato informacional, 1817–1817, Reprodução de gravura publicada 1817, 
representando as atividades da zona ribeirinha de Vila Nova de Gaia, 
o Rio Douro com embarcações, a ponte das barcas, e uma vista sobre 
a cidade do Porto. Autoria: Henry L’Evêque (des.). 
Local de edição: Londres. Editor: Henry L’Evêque.

A evolução do tráfego entre as zonas ribeirinhas do Porto e Gaia está relacionada, sobretudo, pela necessidade de comunicação e troca de bens, esta travessia foi assegurada durante muitos séculos por pequenos barcos.

Início Produtores Tipologias informacionais Assuntos,
Share on Google+ , ponte das barcas, Previous 9 / 37 Next,
Fin de la Bataille d’Oporto, Documento subordinado
Ato informacional, [1809/3/29] – [1809/3/29],
Reprodução de gravura, publicada após 29 de Março de 1809,
 representando a chegada das tropas de Soult à margem do Rio Douro,
na cidade do Porto, a ponte das barcas e parte de Vila Nova de Gaia.
Autoria: Siméon Fort (pint.); William Skelton (grav.).(Editado por mim)

Em 997 no Porto, já existem aquilo que podemos chamar de travessias através da organização de pequenas barcas, era estabelecida para determinado fim, não tinha um carácter definitivo e uma estabilidade  muito deficitária, era utilizada exclusivamente para a comunicação e transporte de pequenas mercadorias.

Porto - Gaia : as travessias do Rio Douro :
brigde of boats at Oporto, on the river Douro
Documento subordinado/Ato informacional, 1986 – 1986,
O simples esboço dos aspectos característicos das duas margens
do rio parece querer indicar que foi uma só a preocupação
de quem desenhou o apontamento reproduzido nesta estampa:
documentar a existência da singela ponte que, lançada sobre barcas,
foi a primeira, no século XIX, a assegurar a fácil travessia.
A estampa serve de ilustração, com muitas outras,
ao segundo volume da obra «Historical, Military, and
picturesque observations on Portugal»,
de George Landmann, desenhada em 18 de Fevereiro de 1815
e impressa em Londres em 1818.(Editado por mim)

A evolução foi inevitável tal era o tráfego de pessoas e mercadorias  e já desde meados do século XVIII, se pode ler (Nas Memórias das Freguesias do Distrito do Porto de 1758) acerca do Douro, que "Nele há vários barcos que todas as semanas vão à cidade do Porto, levar fazenda de vinho, azeite, lenhas, frutas e de toda a espécie de fazendas que as terras dão de si."


Oporto : the custom-house quay,
Documento subordinado/Ato informacional, 1829/12/1 – 1829/12/1,
Reprodução de gravura publicada em 1829,
 representando as atividades no Cais da Alfândega, o Cais da Ribeira,
o Rio Douro com a ponte das barcas, e a Serra do Pilar. 
Autoria: Robert Batty (des.); Robert Wallis (grav.).

Apesar de ser uma necessidade diária e de utilização civil, este na origem do desenvolvimento das postes nos grandes rios, a sua utilização militar, também nas Memórias das Freguesias do Distrito do Porto de 1758, em seu nome próprio, João Duarte de Sousa, ilustre irmão de Frei Francisco de S. José e sargento mor de infantaria, a seu respeito é dito o seguinte " foi homem de conhecido valor e por aquella celebre acção de quando se achava tomada por Castella a Praça de Miranda do Douro, não se atrever soldado algum a hir ao rio cortar as amarras que seguravam hua ponte de barcas, que nelle estava posta, elle se offereceo e por baixo de hum chuveiro de ballas se lançou a nado e cortando-as por falta dos socorros e comunicação se rendeo a praça", S. Nicolau (Porto). 

Bridge of boats at Porto, on the River Douro,
Documento subordinado/Ato informacional, 1815 – 1815,
Reprodução de gravura publicada em 1815,
representando o Rio Douro e a ponte das barcas,
entre a cidade do Porto e Vila Nova de Gaia.
Autoria: George Landmann (des.); James Baily (grav.).

Revela realmente a importância estratégica militar que as pontes teriam nestas situações. Lá diz o ditado "A necessidade aguça o engenho", era uma situação de urgência em que  as tropas necessitavam de passar para a outra margem para acudir a Guimarães cercada pelos castelhanos. 


Ponte e Muralhara Fernandina,1809
Imagem da Revista Ilustração Portuguesa, 1930, N. 114
(Gravura editada por mim)

Para as primeiras pontes de barcas devem ter sido usadas as embarcações de pesca e de transporte das zonas ribeirinhas e, mal passada a emergência, regressavam à sua função habitual.

Esta pontes terão aparecido apartir de 1744, estabeleceu-se uma carreira regular para passagem entre o Porto e Gaia, que logo em seguida, por estes motivos evoluiu para a  construção de passadiços assentes sobre barcaças, isto é, de pontes de barcas. 

Ponte das Barcas, desenho do Barão de Forrester
(Editado por mim)

Como pode ser visto pelas belas ilustrações e postais, existe um sem numero de idealizações de como teriam sido as pontes das barcas uma vez que elas divergem bastante entre si, na verdade, existiram certamente várias versões umas mais robustas do que outras, consoante a sua finalidade e necessidade.


Exposição os Ingleses e o Porto : Brigde of Boats, 1828,
Documento subordinado/Ato informacional, 1985/03 – 1985/03,
Exposição organizada pela Câmara Municipal do Porto,
ocasião da visita de S.M. Britânica a Rainha Isabel II e S.A.R.
o Duque de Edimburgo. No Palácio da Bolsa a 29 de Março de 1985.
Aguarela de MSVP, vista das Fontaínhas, em 1828.
(O Porto visto pelos ingleses).

Em  15 de Agosto de 1806, projectada por Carlos Amarante e inaugurada uma ponte de barcas, com carácter mais definitivo, composta por 20 barcas robustas, ligadas por cabos de aço, ancoradas ao fundo do rio e sobre sí, estendeu-se uma estrada para permitir a passagem de pessoas, bestas e carros.


Oporto from Fontainhas,
Documento subordinado/Ato informacional, 1828 – 1829,
Reprodução de gravura publicada em 1829,
representando o morro das Fontainhas,
o Rio Douro com a ponte das barcas,
a Serra do Pilar e Vila Nova de Gaia. 
Autoria: Robert Batty (des.); Thomas Jeavons (grav.).

Apesar de robusta permitia alguma flexibilidade com o efeito das marés e ainda com abertura para passagem de embarcações, tráfego fluvial e permitia a sua recolha total quando as condições climatéricas assim o exigiam.

Catástrofe na ponte do Rio Douro em 1809,
Documento subordinado/Ato informacional, 1850 – 1850,
Reprodução de gravura datada de 1850,
representando o desastre da ponte das barcas,
no Porto, no dia 29 de Março de 1809.
Autoria: Emídio Carlos Amatucci? Local de impressão: Porto.
Impressor: Litografia da Rua de Santa Catarina, n.º 19.

Acredita-se que o Porto tenha aperfeiçoo muito bem a técnica da construção destas pontes "amovíveis"  em todo caso não o suficiente para evitar a célebre catástrofe da Ponte das Barcas, o dia 29 de Março de 1809 no qual centenas de pessoas, fugindo das tropas do Marechal Soult que atacavam a cidade sob ordens de Napoleão, faleceram na travessia da Ponte das Barcas. 

A cidade do Porto pobremente vestida e consternada entre cadeias,
recusa aceitar a mortífera bandeira, que a França lhe intenta fazer tomar.
Documento subordinado/Ato informacional, [1809/3/20] – [1809/3/20],
Reprodução de gravura, dedicada a Nicholas Trant, com uma
alegoria à entrada das tropas francesas e ao desastre da ponte das barcas,
ocorrido em 29 de Março de 1809, no Porto.
Autoria: José Teixeira Barreto (des.); Raimundo Joaquim da Costa (grav.).

O peso e a aflição da população em fuga originou o afundamento da ponte que ligava as duas margens do rio Douro. Eventualmente colapsou a meio, mas as pessoas que fugiam em pânico da morte certa não notaram. À medida que se empurravam, mais e mais vítimas caíam ao rio, provocando centenas de mortes nesse dia.

Foto do aspeto do mural, alguns anos após a inauguração da escultura.
É possível observar as portas das lojas de comércio decoradas com
tecidos para atrair fregueses e a calçada da rua também diferente.

Em 1897, foi encomendado ao escultor Teixera Lopes, um baixo relevo em bronze alusivo e em memória do acontecimento, escultura denominada de "Alminhas da Ponte".

Oporto, with the bridge of boats,
Documento subordinado/Ato informacional, 1813 – 1813,
Reprodução de gravura de 1813, dedicada ao Marquês de Wellesley
por Robert Daubeny King, representando a entrada no Porto
das tropas anglo-portuguesas comandas por Wellington,
atravessando o Rio Douro pela ponte das barcas,
em 12 de Maio de 1809. Autoria: Henry Smith (des.);
Matthew Dubourg (grav.). Local de edição: Londres. Editor: Edward Orme.

A ponte deve ter sido logo reparada pois a 12 de Maio de 1809, ainda no decurso da Guerra Peninsular, foi incendiada pelos franceses para impedir a passagem das tropas anglo-lusas sob o comando de Wellesley.

Porto antigo : vista do Porto com ponte das barcas,
Documento/Processo, [1910] – [1910],
Local de Edição: [S.l.], Editor: M. S. D.
Preto e branco,(Editado por mim)
Estampilha: Não, (Série: Segunda, nº 9)


Depois de três anos a passar regularmente a pé enxuto pela Ponte das Barcas é natural que a população ribeirinha não se conformasse com a destruição da ponte e, mal acabada a insegurança que resultava da presença dos invasores franceses, se apressasse a reconstruir a passagem. Até à inauguração da Ponte Pênsil em 1843, foram ainda construídas duas pontes de barcas com concepção melhorada em relação à anterior.


Escultura comemorativa do 2.º centenário da memória das vitimas 
da tragédia de 1809, estrutura metálica no cais da Ribeira do Porto.

Em março de 2009, no segundo centenário da morte das cerca de quatro mil vítimas do desastre da Ponte das Barcas ocorrido em 1809, em sua memória, o Presidente da República, Cavaco Silva, inaugurou no Porto um monumento da autoria do arquiteto Souto Moura, que colocou grandes peças metálicas junto aos locais onde se procedia à amarração das cordas que prendiam as barcas que constituíam a ponte.

Data comemorativa do 2.º centenário da memória das vitimas
da tragédia de 1809, gravura em pedra no cais da Ribeira do Porto.

Fontes:
Coleção Memórias das Freguesias do Distrito do Porto de 1758
web.fe.up.pt
imagnes: gisaweb.cm

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Uma Passagem Pelo Douro

Ponte do Sermenha e Casa do Granjão (Linha do Douro)
Peso da Régua  Portugal.
Editor não referido - BP não numerado.
Bilhete postal antigo, circulado da década de 20.
Fonte: Delcampe


Casa do Granjão


Ponte Ferroviária do Sermenha e Entrada Principal da Casa do Granjão
Foto: Pedro Paiva, 2018

No extremo oriente da freguesia de Vila Marim e do mesmo lado, no final da margem do pequeno Sermenha , contornada pela Estrada da Marginal do Douro Norte(EN 108) que segue para a Régua, encontra-se a Casa do Granjão voltada para sul. A disposição da casa tem a particularidade de ser tengente à ponte ferroviária sobre o Rio Sermenha que apesar de se encontrar nivelada pelo seu primeiro piso, corta a vista da entrada principal sobre o Rio Douro.

Portão da entrada secundária do imóvel,
com acesso ao jardim e edifícios anexos.
Foto: Pedro Paiva, 2018

Casa datada do século XVIII. É constituída pelo edifício principal, uma capela e um jardim com um lago,que se prolonga numa varanda corrida engradada balançada sobre um muro alto, que permite desfrutar de uma vista deslumbrante sobre o Douro e que é conhecido como jardim das glicínias, o acesso ao jardim pode ser feito também por um pequeno escadaria que rasga esse muro em zig zag.

Portão e pátio principal do imóvel
Foto: Pedro Paiva, 2018

Todos os volumes organizados , convergindo todos para um pátio, voltada para uma entrada onde se destaca um portão armoriado, brasonado com referências neoclássicas, o portal contracurvado rematado por uma urna, ladeado por duas pilastras de cantaria rematados por volutas, ostenta um brasão envolvido por elementos vegetalistas e que possui, como era hábito na altura, uma capela de invocação a Santa Luzia, estes datados de 1853.

Varanda e miradouro exterior do pátio do imóvel
Foto: Pedro Paiva, 2018

Sobre a porta central da residência existe uma segunda "Pedra de Armas" de feitura rude, menos pomposa, que se supõe ter sido o primeiro brasão heráldico da primitiva Casa do Granjão construída nos fins do século XVIII, por Manuel Botelho Teixeira, pai de António Botelho Teixeira (1808) , 1º barão do Granjão, título concedido em 1867, e visconde do mesmo título em 1879. Foi capitão do exército miguelista passando a exercer as mesmas funções no exército liberal depois da convenção de Évora Monte. Presidiu aos destinos da Câmara Municipal de Mesão Frio durante quarenta anos, tendo também sido provedor da Misericórdia em 1880.

Vista panorâmica sobre a fachada principal do imóvel.
Foto: Tâmara Júnior, s/d

Casa de planta composta por vários corpos, cronologicamente distintos, com sua disposição em U, integrando a casa principal e a capela nos seus extremos. Volumes articulados com coberturas diferenciadas em telhados de quatro águas no corpo mais recente, duas águas na capela e uma água no corpo mais antigo.


Fachada principal do imóvel,
Foto: Pedro Paiva, 2018

A casa principal é marcado por duas longas fachadas, uma voltada para o Rio Sermenha., constituída por um alto muro encimado por uma varanda com uma pérgola metálica adossada com um acesso lateral promovido por um escadaria e rematado por um pequeno portão de entrada secundaria, e ainda um corpo de dois pisos, o primeiro piso evidencia pequenos janelos e uma porta de acesso ao armazém agrícola, no piso superior, correspondente a habitação, deslumbra-se com um revestimento a azulejos de padrão azul e branco é marcado por oito vãos de verga recta, 6 janelas e 2 portas centrais que dão acesso a uma varanda que ostenta no gradeamento.

Varanda da casa de habitação voltada para a Ponte Sermenha
Foto: Pedro Paiva, 2018

Vista sobre a entrada principal sobre o gradeamento
da escada exterior de acesso a EN 108,
Foto: Pedro Paiva, 2018

A outra fachada principal, fica voltada pata o pátio que estabelece a relação entre a cota da estrada e a cota do terreiro de acesso ao portal brasonado, assim como os outros edifícios e jardim do imóvel. O imóvel é limitado a este, pela parede posterior da capela, entre o portal e esta parede, sobre uma pilastra um pequeno campanário de duas águas. A capela empedrada apresenta um altar pintado e dourado com imagens de madeira policromada. Ao lado direito uma sacristia com um pequeno arcaz.

Fachada principal da capela voltada para o pátio central,
Foto: Pedro Paiva, 2018
Pequena escadaria entre o terraço (miradouro)
e a Ponte Sermenha,
Foto: Pedro Paiva, 2018

Atualmente desabitado, são sinais evidentes o descuido do jardim e do pátio da entrada principal, o cadeado na entrada secundária de acesso ao jardim e a vegetação no seu trilho, também a vegetação indomada que teimosamente se enroscam nos corroídos caramanchões de ferro trabalhado.

Pormenor do portão da entrada secundária,
Foto: Pedro Paiva, 2018


Ponte de Sermenha


Ponte do Sermenha e Casa do Granjão (Linha do Douro) 
Peso da Régua  Portugal. 
Editor não referido - BP não numerado. 
Bilhete postal antigo, não circulado da 1.ª década de XX.
Fonte: Desconhecida


Em boa verdade desabitada(Casa do Granjão) mas, desde 1879, em boa companhia, a Ponte Sermenha ou como também é conhecido Viaduto Sermenha, um robusto emaranhado de ferro à imagem da arquitetura de Eiffel, e assente em esculpidos blocos de pedra granítica, atravessa o rio com o mesmo nome numa extensão de aproximadamente 182 metros, que rivalizam com os outros metros das pontes que ligam os vales do douro, nomeadamente as mais imponentes, Ponte do Pinhão e Barca D'alva.

Vista lateral do tabuleiro metálico e pilares graníticos da Ponte
Foto In WWW.IDOURO.COM(Facebook)

Antónia Ferreira, seria uma acérrima impulsionadora da sua construção, esta ponte viria a impulsionar, não á agricultura vinícola, como também a favorecer o desenvolvimento da estação termal balneária de Caldas do Moledo, que desta forma chegaria a um maior numero de banhistas.

Grande plano da Ponte Sermenha e da Casa do Granjão,
Foto de nmorão, In pt.geoview.info, 2012

Apesar dos seus 140 anos, oficialmente celebrados a 15 de julho de 2019, apresenta um estado de conservação notável, construída para assegurar a primeira linha ferroviária que liga o Alto Douro até ao Porto, seve com distinção as funções para as quais foi projetada.


Grande plano da Ponte Sermenha e da Casa do Granjão,
espelhados no Rio Douro
Foto de nmorão, In pt.geoview.info, 2012

As motivações para a construção da Linha Ferroviária do Douro até ao Porto denota bem a vontade que os comerciantes do Norte do País do século XIX tinha em expandir os seus mercados em direcção às províncias isoladas de Trás-os-Montes e do Alto Douro, por outro lado e em sentido contrário, os interesses vinícolas não só do alto douro mas também do país vizinho, de asseguram um transporte mais eficaz os produtos agrícolas até ao Porto e consequentemente os exportar pela Alfândega e Leixões.

Vista da estrutura férrea do tabuleiro da Ponte,
Foto: Pedro Paiva, 2018


Fontes: 
geocaching.com/ 
mesaofrio.com.pt/






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